
Série fotográfica submetida a concurso no âmbito do Concurso Internacional de Fotografia Luis Ferreira Alves | Um Olhar Contemporâneo sobre a Arquitetura
Paradoxo:
vive-se a era dos dados, da informação disponível de várias formas, em várias plataformas, e sabe-se muito pouco sobre o outro. Desconhece-se e, também nisso, desconecta-se. Sabe-se pouco sobre os outros contextos onde os muitos outros anónimos existem.
Angola é exemplo. É sinónimo, no discurso comum, de disparidade, concretizada em corrupção e violência. O vocábulo remete aos manuais de história, mesmo que a sua nem brevemente seja contada. Relembra memórias de uma guerra indesejada. Remexe na desilusão dos muitos que tiveram de ir, de regressar, de se arrancar dos sonhos.
No entanto, é desconhecida. Quantos guias de viagem por escrever; quantos imaginam um país além Luanda; quantos reconhecem a arquitectura vernacular - e a moderna - angolana. Onde estão as publicações, as monografias dos arquitectos que esquissaram a modernidade, ali sonhada porque ali permitida. O que resta dessa modernidade. Mais que perguntas, são capítulos de demonstram, um atrás do outro, este paradoxo. Tanto reconhecemos quanto desconhecemos.
Malanje é um exemplo dentro deste, mais depurado. Não ecoa nos livros, nas legendas dos parcos edifícios fotografados e descritos. Não se sabe, sequer, o correto grafismo do nome. Desconhece-se a sua diversidade, não se lhes reconhecem os traços e nem vêm à memória os nomes de quem os desenhou. Mas eles ali vivem, assim como vive o país. Coloridos e espessados por algum grau de decadência, baleados. Expectantes e intensamente utilizados. Nostálgicos, ao refletir o olhar de quem os perdeu, e ágeis a responder a quem os ocupou, a fazer deles estrutura para uma vida. Cumprindo o seu propósito de oferecer o habitar, mesmo de famílias sem sobrenome, mesmo que sem o reconhecimento teórico deste movimento implantado no planalto tropical. Exalta-se o modernismo mas ignora-se a história daquele que cumpre, anonimamente, a sua real função, em paradoxo.
(texto de Teresa Leão)






